“Cirurgia a laser” virou uma expressão comum, mas ela esconde procedimentos muito diferentes entre si. Em urologia, o laser é usado em duas situações principais: no tratamento da próstata aumentada e no tratamento das pedras nos rins e no ureter. Este texto explica, sem jargão, o que cada técnica faz, para quem costuma ser indicada e quais perguntas vale levar à consulta. Ele é informativo: a indicação, os riscos e a escolha da técnica dependem da avaliação individual com o urologista.
Duas frentes, duas doenças diferentes
Na próstata, o laser trata o crescimento benigno (hiperplasia prostática benigna, a próstata aumentada), quando os sintomas urinários não melhoram com remédios ou quando aparecem complicações, como retenção de urina ou infecções repetidas. Não se trata de câncer: a próstata aumentada e o câncer de próstata são doenças distintas, e o laser descrito aqui não é tratamento de câncer.
No cálculo renal, o laser quebra a pedra por dentro do corpo, levado até ela por um aparelho fino que entra pelo canal da urina. É uma ferramenta dentro de um procedimento chamado ureteroscopia; ele não substitui a prevenção de novas pedras, que continua dependendo de hidratação, alimentação e acompanhamento.
Próstata aumentada: HoLEP e fotovaporização
HoLEP é a sigla em inglês para enucleação da próstata com laser de hólmio. Pelo canal da urina, sem cortes na pele, o laser separa o tecido que cresceu da cápsula da próstata, como quem descasca uma fruta por dentro. O tecido é então triturado dentro da bexiga e retirado. Dois pontos costumam pesar na indicação: a técnica serve para próstatas de vários tamanhos, inclusive as grandes, e todo o tecido retirado vai para análise no laboratório. As diretrizes europeia e americana colocam a enucleação a laser como alternativa à ressecção endoscópica tradicional (a “raspagem”, RTU) e à cirurgia aberta, com menos sangramento; a europeia registra também internação mais curta, em troca de uma cirurgia mais longa.
Fotovaporização, conhecida pela marca GreenLight, usa um laser verde para vaporizar o tecido que obstrui, em vez de retirá-lo em bloco. O procedimento costuma sangrar menos que a raspagem tradicional, o que faz dela uma das opções avaliadas para quem usa remédios para afinar o sangue, junto com a enucleação e outras técnicas; a diretriz europeia considera essa opção sobretudo em próstatas de até cerca de 80 mL, e nenhuma técnica dispensa a conversa com o médico que prescreve o anticoagulante. Como o tecido é vaporizado, não sobra material para análise, e a chance de precisar de um novo procedimento com o passar dos anos tende a ser maior do que após a enucleação.
Efeitos esperados que o urologista discute antes da cirurgia, em qualquer das técnicas: ejaculação retrógrada (o sêmen vai para a bexiga e sai depois com a urina; é muito frequente após a enucleação e também pode ocorrer após a fotovaporização), um escape temporário de urina nas primeiras semanas, que na maioria das pessoas desaparece, e, mais raramente, estreitamento cicatricial do canal. Nem todo caso é cirúrgico: sintomas leves podem ser acompanhados e remédios resolvem boa parte das situações.
Cálculo renal: a ureteroscopia a laser
Muitas pedras pequenas saem sozinhas. Segundo a diretriz europeia de urolitíase, cerca de três em cada quatro cálculos do ureter com menos de 5 mm são eliminados em algumas semanas, com chance maior quando a pedra já está perto da bexiga, e remédios que relaxam o ureter podem ajudar nos cálculos um pouco maiores da parte final do canal. Quando a pedra não sai, causa obstrução, dor que não cede ou infecção, entra o tratamento ativo.
Na ureteroscopia, um aparelho fino, rígido ou flexível, entra pela uretra e sobe pelo ureter até a pedra; quando chega ao rim, o nome técnico é ureterorrenolitotripsia flexível. A fibra de laser, de hólmio ou de túlio, quebra a pedra de duas maneiras: fragmentando em pedaços que são retirados na hora com uma cestinha, ou pulverizando em pó fino, que sai com a urina nos dias seguintes. A escolha entre uma e outra depende do tamanho, da dureza e da posição da pedra, e nem sempre o pó é a melhor opção: fragmentos que ficam podem crescer e exigir novo tratamento. Em alguns casos, um cateter fino chamado duplo J fica temporariamente entre o rim e a bexiga; ele pode causar vontade frequente de urinar e desconforto até ser retirado.
A ureteroscopia não é a única forma de tratar pedras. A litotripsia por ondas de choque, feita por fora do corpo, segue como opção para cálculos menores em posições favoráveis; a cirurgia percutânea, por um pequeno furo nas costas, costuma ser a primeira escolha para pedras grandes, acima de cerca de 2 cm. A ureteroscopia tende a resolver a pedra em uma única sessão com mais frequência do que as ondas de choque, mas tem uma taxa de complicações maior, entre elas a infecção, o que reforça a importância do exame de urina antes do procedimento.
O que o laser não faz
Ele não impede que novas pedras se formem: cerca de uma em cada quatro pessoas tem um novo episódio em cinco anos, e a prevenção depende de descobrir por que a pedra apareceu. Na próstata, ele não trata câncer nem substitui o acompanhamento com PSA e exame clínico. E, em nenhuma das duas frentes, o resultado é garantido: cada técnica tem indicações, limites e riscos, e a experiência da equipe faz diferença.
Perguntas para levar à consulta
- No meu caso, a cirurgia é necessária agora ou posso acompanhar e tratar com remédios?
- Qual técnica é indicada para o tamanho da minha próstata ou da minha pedra, e por quê?
- Uso anticoagulante ou antiagregante: o que muda no preparo e quem decide sobre a pausa do remédio?
- Quais efeitos devo esperar nas primeiras semanas (sonda, sangramento, ejaculação, escape de urina, cateter duplo J)?
- Qual é a chance de precisar de um novo procedimento e como será o acompanhamento depois?
- Existem alternativas à técnica proposta e quais são os prós e contras de cada uma?
Referências consultadas
- European Association of Urology. Guidelines on Management of Non-neurogenic Male LUTS, edições 2025 e 2026.
- American Urological Association. Management of Lower Urinary Tract Symptoms Attributed to Benign Prostatic Hyperplasia: AUA Guideline, Part III (Surgical Treatment), 2026; e versão 2021, emendada em 2023.
- Cochrane. Enucleação da próstata com laser de hólmio versus ressecção transuretral (revisão sistemática CD013291), 2026.
- European Association of Urology. Guidelines on Urolithiasis, edições 2025 e 2026.
- American Urological Association / Endourological Society. Surgical Management of Kidney and Ureteral Stones: AUA Guideline, Part I, 2026.
- BJUI Compass, 2025. Revisão sistemática de resultados de longo prazo (5 anos ou mais) de HoLEP e GreenLight.
- EDGE Research Consortium. Dusting versus basketing during ureteroscopy, Journal of Urology, 2018.
- Canadian Urological Association. Guideline on male LUTS/BPH, 2022.
Este artigo é informativo e não substitui a consulta. Este texto aguarda revisão médica da equipe do Instituto da Próstata.